Daniel Farke está perto de alcançar o impossível: igualar Marcelo Bielsa no Leeds United
"Não voltei a Leeds principalmente porque o sentimento de nostalgia é algo que, às vezes, a gente resiste em enfrentar", disse Marcelo Bielsa aos jornalistas em seu retorno à Inglaterra no mês passado.
“Tudo o que vivi naquele clube me traz nostalgia. Vejo isso como uma das memórias mais bonitas que o futebol me deu.”
Seria até um eufemismo dizer que o sentimento é recíproco entre a torcida do Leeds United.
Isso ficou claro nas arquibancadas de Wembley no amistoso da Inglaterra contra o Uruguai, com grupos de torcedores do Leeds por todo o estádio vestindo camisas, exibindo faixas e entoando cantos para a figura quase messiânica que tirou o clube de seu longo exílio na Football League.
As cenas daquele amistoso imediatamente esquecível lembraram os tempos que os torcedores do Leeds conhecem bem, quando fãs do Newell’s Old Boys, do Marseille e do Athletic Club lotavam Elland Road para ver de perto a mais recente versão do futebol de Bielsa.
Daniel Farke igualou Bielsa ao garantir a promoção como campeão, na segunda tentativa, mas será difícil repetir algo assim.
Você não vê o rosto de Farke em murais pela cidade. Não há nenhuma rua no centro com o nome do alemão. Você nunca ouviu falar das viúvas de Farke, ouviu?
Isso não diminui em nada o que Farke conquistou em suas três temporadas no clube. Ele passou por quase todos os testes que lhe foram impostos, desde lidar com duas janelas de transferências de verão extremamente difíceis e caóticas até levar o Leeds ao acesso como campeão com 100 pontos.
Mas o contexto é diferente. Em comparação, tudo com Farke e o Leeds pareceu muito mais profissional — e, dado o contexto, era sempre isso que se esperava.
Farke não herdou um grupo mediano que ficou longe na Championship após passar mais de uma década fora da Premier League. A parte do “adormecido” em “gigante adormecido” sempre pareceu especialmente adequada ao Leeds, até Bielsa chegar a Thorp Arch e mudar tudo em 2018.
O argentino comandou uma reinicialização cultural completa, do clube aos torcedores e à própria cidade. O período de Bielsa no comando marcou o grande despertar do clube.
Em comparação, a tarefa de Farke era bem menor. Havia uma bagunça para arrumar após o rebaixamento do clube em 2023. A política de contratações sem critério sob Victor Orta havia cobrado seu preço. Suceder diretamente Sam Allardyce no comando técnico diz tudo sobre a situação do clube.
A recuperação estava longe de ser garantida, mas Farke encontrou um cenário bem mais favorável do que Bielsa. Com uma gestão estável, finanças relativamente saudáveis e jogadores acima do nível da Championship, o Leeds escolheu o homem certo para o cargo — e ele correspondeu à reputação.
Aí está a diferença. O grupo proprietário dos 49ers adotou, com mérito, a abordagem de “melhores práticas”, a mais adequada, mas ela está longe do romance quase de conto de fadas e do mistério de Bielsa — com intérprete ao lado, balde à beira do campo e um futebol de outro mundo.
Sempre houve a sensação de que, quando chegasse a hora de Farke sair, isso aconteceria com a mesma lógica empresarial fria e pragmática que marcou a sua contratação. Um aperto de mão, um "obrigado", respeito e reconhecimento genuínos por tudo o que fez, mas no fim das contas com os olhos voltados para seguir em frente com o próximo nome.
Isso não quer dizer que Farke não seja muito querido. Se as informações estiverem corretas, a diretoria do Leeds esteve perto de substituí-lo de forma impiedosa após ele garantir o acesso no verão, mas recuou diante da forte reação dos torcedores.
Mesmo assim, era impossível escapar à sensação de que ele estava com os dias contados. O equivalente, como treinador, a Dwight Gayle, Adam Armstrong ou Rob Earnshaw: bom demais para a Championship, mas sem nível para a Premier League. Em duas passagens ruins pela elite com o Norwich City, registrou média de 0,5 ponto por jogo na Premier League, ficando no mesmo patamar de Scott Parker.
De fato, é de imaginar que haveria aceitação se o Leeds tivesse tomado a decisão quando Farke estava, segundo relatos, a um jogo ou dois de ser demitido em novembro. O sentimento predominante na época era de que o ciclo provavelmente havia chegado ao fim.
Como alguns meses mudam tudo. Farke não só demonstrou um pragmatismo admirável que poucos imaginavam que tivesse, como sua mudança magistral para uma linha de três deu ao Leeds uma luta pela permanência muito melhor do que qualquer um poderia prever.
A 17ª colocação sempre representaria um excelente resultado para o Leeds nesta temporada, especialmente depois de os últimos seis clubes promovidos terem caído de volta de forma imediata.
Escapar por pouco do rebaixamento significaria muito para o Leeds, especialmente para os cofres do clube. Mas o que realmente colocaria o nome de Farke no folclore do Leeds — no patamar de Bielsa — seria algo espetacular, como uma campanha em copas até Wembley.
– Domingo, 5 de abril de 2026
O Leeds não chega a uma final de copa há 30 anos. O clube não alcança uma semifinal da FA Cup desde 1987. Ninguém com menos de 40 anos se lembra do Leeds entre os quatro finalistas da competição de copa mais tradicional do mundo.
E agora eles chegaram lá. Isto já é algo especial.
Sim, o Leeds contou com um sorteio favorável: três times da Championship e um West Ham alternativo, em 18º lugar. Mas acabamos de ver o Arsenal ser eliminado por um adversário da segunda divisão. Equipes como Fulham e Sunderland, seguras no meio da tabela, desperdiçam oportunidades de ouro para avançar.
Eliminações humilhantes na FA Cup para equipes como Newport County, Sutton United e Histon ainda estão vivas na memória. O maior time do Leeds United sob o comando de Don Revie sofreu uma derrota infame para o Colchester United, da quarta divisão, em 1971. Até o Leeds de Bielsa caiu diante do Crawley Town, da League Two, que ampliou a humilhação ao colocar em campo a estrela de reality show Mark Wright na vitória por 3 a 0.
Na temporada passada, o Crystal Palace chegou a Wembley ao bater Stockport County, Doncaster Rovers, Millwall e Fulham. Quem se importa?
O Leeds venceu apenas uma FA Cup em toda a sua história. O clube não chega a uma final há mais de meio século; sua última aparição foi na famosa derrota para o Sunderland de Jimmy Montgomery, em 1973.
Farke ainda não chegou lá. Ainda há trabalho a fazer. Ele continuará longe do status mítico de Bielsa se o Leeds voltar a ter uma atuação apática e deprimente e perder em Wembley — algo com que o clube está demasiado familiarizado após anos de desilusões nos play-offs e frustrações em finais de copa.
A maior mancha no trabalho de Farke foi a atuação apática do Leeds na derrota para o Southampton na final dos play-offs de 2024. Ficou a sensação de que o time poderia ter feito mais. Agora, ele tem a chance de se redimir.
Pode-se entregar a Farke as chaves da cidade se ele se tornar o primeiro técnico do Leeds em 34 anos a conquistar um título e apenas o segundo, depois de Revie, a erguer a FA Cup.
É uma tarefa difícil, com o Chelsea e provavelmente o Manchester City pelo caminho.
Mas Farke não precisa necessariamente erguer o troféu para se aproximar do status de Bielsa. Dar aos torcedores uma atuação da qual possam se orgulhar, algo para celebrar, e exorcizar os fantasmas das decepções passadas em Wembley já seria um grande passo. Eric Cantona foi o último jogador do Leeds a marcar em Wembley.
O Leeds segue invicto contra o Chelsea nesta temporada e dominou o rival em Elland Road. É verdade que perdeu para o City em casa e fora, mas dificultou bastante a vida dos candidatos ao título de Pep Guardiola nas duas partidas. São apenas dois jogos, e tudo pode acontecer.
Os torcedores podem realmente sonhar com um troféu, algo inédito para toda uma geração. Farke merece reconhecimento por tornar isso possível.