Esclarecendo a identidade do Manchester United
Muitas pessoas ligadas ao Manchester United — entre comentaristas, torcedores, ex-jogadores e ídolos — foram criticadas nos últimos meses por recorrerem ao termo “DNA do Manchester United”. Para alguns, trata-se de um jargão com pouco ou nenhum significado. Um clube pode realmente ter um DNA duradouro? E, em caso afirmativo, como defini-lo com exatidão?
Claro, a essência do DNA do United é vencer jogos e conquistar títulos da liga. O sucesso é o elemento central do clube de cima a baixo, mas não se trata apenas de vencer por vencer. Existe uma forma própria de alcançar o sucesso, uma filosofia cultivada no United que deve caminhar lado a lado com as conquistas. E é uma filosofia que muito poucos, sem ligação com o clube ou sem terem jogado por ele, conseguem realmente definir ou compreender.
As arrancadas de Wayne Rooney, Ji-Sung Park e Cristiano Ronaldo sob as luzes do Emirates Stadium seguem vivas na memória dos torcedores do Manchester United, como símbolo de uma época em que o DNA do clube era evidente — embora essa filosofia tenha sido moldada muitos anos antes.

8 de maio de 1994: Retrato do técnico do Manchester United, Alex Ferguson, antes de uma partida da FA Carling Premiership contra o Coventry City em Old Trafford, em Manchester, Inglaterra. O jogo terminou empatado em 0 a 0. Crédito obrigatório: Shaun Botterill/Allsport
Antes daqueles três jogadores, foram Duncan Edwards, Tommy Taylor, Eddie Colman e até Sir Bobby Charlton, entre muitos outros.
Juventude, coragem e sucesso são valores centrais do clube. É assim desde que os Busby Babes alcançaram seus feitos antes da tragédia aérea de Munique, sob o comando de uma das figuras mais importantes da história do clube, Sir Matt Busby. Na temporada 1957/58, ano do desastre de Munique, a média de idade do elenco era de 22 anos. Formados pelo Manchester United, esses jogadores receberam oportunidades no time principal, entre os titulares e no elenco, provando que, com jovens bem desenvolvidos no ambiente certo, é possível alcançar qualquer coisa no futebol.
É por isso que sempre houve tanta atenção à academia do United. Nick Cox, ex-chefe da base do Manchester United, já destacou como é algo extraordinário ver tantos adeptos acompanharem o desenvolvimento dos jovens do clube para o futebol de equipa principal dentro de Carrington, e antes disso em The Cliff. Jogar pelo United é um modo de vida. Dar aos rapazes uma oportunidade na equipa principal faz parte do ADN do clube. Não é a mesma realidade em Liverpool, Chelsea ou Manchester City.
Nick Cox elogia o interesse pela Academia do Manchester United: 'As pessoas apoiam muito o trabalho que fazemos. Não há outro clube igual no desenvolvimento de jovens'
Outros clubes podem lançar jogadores da base, mas em nenhum isso parece ter o mesmo peso que no United. Pode haver quem discorde, e os torcedores desses clubes certamente argumentarão o contrário, mas a história não mente: 257 jogadores formados na academia já atuaram pelo time principal, com Bendito Mantato sendo o mais recente, após Jack Fletcher e Shea Lacey. Entre esses 257, alguns se tornaram lendas do clube, outros seguiram carreiras bem-sucedidas em outros lugares, e todos contribuíram para a história deste famoso clube de futebol.
Os Busby Babes, a Class of 92, também conhecida como os pupilos de Fergie, são partes fundamentais da identidade do Manchester United — e isso não pode ser reescrito por quem não entende ou não quer compreender o que isso significa.
Pode-se argumentar que o Manchester United de hoje não existiria sem aquelas equipas. Sem aqueles riscos, não haveria a tríplice coroa de 1999. Sem as oportunidades dadas àqueles jovens, não haveria 13 títulos da Premier League. É vital que o próximo treinador depois de Carrick entenda esses valores e se comprometa a mantê-los.
Um recorde do United que nenhum outro clube consegue igualar: desde outubro de 1937, o time sempre teve ao menos um jogador formado na base em cada lista de convocados para um jogo — já são impressionantes 4.377 partidas consecutivas com um atleta da academia do clube no elenco. É um dos feitos mais marcantes que um clube pode ostentar.
A juventude e a aposta nela, porém, não são o único termômetro do que realmente define o “DNA UNITED”. É risco e caos. É futebol ofensivo. Magia pelos lados. Um jogo em alta velocidade, de tirar o fôlego e fazer o torcedor se levantar no Theatre of Dreams. Admiração e satisfação reunidas no famoso rugido de Old Trafford, que ao longo dos anos arrepiou milhões — e possivelmente bilhões — de pessoas.
Esse estilo nasceu muito antes de Alex Ferguson. A forma de jogar e de fazer as coisas no clube não surgiu apenas quando o lendário técnico escocês assumiu. Ele a aperfeiçoou. Entendeu que ela era obrigatória ao chegar ao clube, incorporou esse princípio e construiu uma carreira vencedora a partir desse lema.
"Quando vejo o United atacar, quero vê-lo atacar com quatro coisas: velocidade, força, penetração e imprevisibilidade", foi o que Sir Alex Ferguson disse a Rene Meulensteen sobre como queria que suas equipes jogassem em 2007.
É tirar um zagueiro e colocar um atacante quando o time empata em 1 a 1 em casa e não quer se contentar com um ponto. É arriscar aquele passe de 50 jardas para tentar algo novo quando o jogo esfria. É ouvir o clamor por “ataque, ataque, ataque” aos 90 minutos e ir com tudo em busca do gol da vitória.
Os muitos gols tardios do United na era Fergie não foram obra do acaso; eram resultado de um plano. Foi uma aposta ofensiva incessante, que transformou a equipe em uma das mais perigosas e quase impossíveis de conter que esta liga já viu — e talvez nunca volte a ver.
O vídeo de Sir Bobby Charlton tem sido muito citado nos últimos dias. “Futebol ousado e empolgante, dando espaço aos jovens e entretendo a torcida.” Isso foi dito há quase 30 anos. Não se trata apenas de um chavão usado em debates ou temas de torcedores que devam ser descartados. Isso tem significado. Dá para sentir a diferença no Manchester United quando o time joga à maneira do United ou não. Sob Solskjaer, o United parecia um clube com o qual os torcedores podiam se identificar. Era diferente da era de Louis van Gaal. Van Gaal seguiu a política de juventude, coragem e sucesso, mas o futebol que sua equipe praticava estava longe de representar o estilo do United.