Eu estava lá: a glória da Inglaterra na Euro 2025 foi um borrão surreal, quase psicodélico
Surreal. Absolutamente surreal. A Euro em casa, em 2022, trouxe onda após onda de emoção, e a vitória da Inglaterra em Wembley foi o ponto alto de décadas de crescimento, contratempos, luta e desejo profundo. Todos estiveram unidos naquela conquista inédita da Euro: imprensa, emissoras, torcedores, patrocinadores, Federação Inglesa, jogadoras, Sarina Wiegman e sua comissão técnica. Houve lágrimas — muitas. Tendo começado a cobrir o futebol feminino para o Guardian em uma coluna semanal antes da Euro de 2017, e passado a fazê-lo em tempo integral antes da Copa do Mundo de 2019, senti como se tivesse vivido essa evolução, percorrido essa jornada com elas e contribuído, ainda que de forma modesta, para esse crescimento.
A edição de 2025 foi diferente, surreal, quase psicodélica. Em muitos aspectos, melhor do que a de 2022. Foi o primeiro grande título da Inglaterra, no masculino ou no feminino, conquistado fora de casa. A expectativa era alta, mas lesões, aposentadorias e atuações e resultados irregulares já indicavam que defender o título não seria tarefa simples. Isso tornou a conquista ainda mais grandiosa.
O clima também era diferente. Em 2022, só quando o torneio já estava bem encaminhado é que as Lionesses entraram no radar do grande público. Desta vez, o interesse popular surgiu desde o início, com atenção às aposentadorias de Mary Earps e Fran Kirby, ao afastamento de Millie Bright e à condição física de Georgia Stanway e das duas Lauren, James e Hemp.
Os adeptos da Inglaterra viajaram em tal número que o ambiente fez lembrar os estádios de 2022, e a primeira vitória em um grande torneio fora de casa nem pareceu ter acontecido em solo estrangeiro.
Depois, houve o futebol, que proporcionou a experiência mais emocionante e de tirar o fôlego, com todos vivendo juntos a agonia e a euforia a cada reação, prorrogação e disputa de pênaltis.
Tente escrever durante esses jogos. Os pontapés de saída tardios, muitos às 21h no horário local, somados ao drama em campo, fizeram-me sentir como se passasse cada partida numa corda bamba metafórica, tentando redigir uma reportagem que pudesse ser adaptada, em segundos, a um fracasso total ou a uma reviravolta épica.
É difícil traduzir o que é cobrir um grande torneio como jornalista. É uma experiência estranha, intensa e completamente absorvente. A agenda é irregular, instável e pouco compatível com a vida social. Fora do trabalho, tenta-se encaixar algumas vivências do lugar, mas com a sensação de estar apenas de passagem. Para desligar a mente, desenhei num pedaço de linóleo A4 momentos do torneio e padrões que vi e de que gostei, recortando-os com a ideia de criar uma tapeçaria imprimível daquele mês.
Os dias de jogo mexem mesmo com o relógio biológico. Sempre descrevi o período até duas horas antes do pontapé inicial como a calma antes da tempestade. Não há muito a fazer, porque a partida vai ditar o tom da cobertura. Tudo o que for publicado antes fica desatualizado assim que o árbitro apita. O dia de trabalho começa principalmente às 21h, às vezes às 18h.
Então a tempestade atinge em cheio e continua por cerca de uma hora e meia após o jogo. Entrevistas coletivas e a zona mista com os jogadores fazem com que a saída do estádio só aconteça depois das 2h, se houver prorrogação ou pênaltis. Depois disso, é impossível desacelerar por horas: a adrenalina não deixa dormir após tudo o que se viu, viveu e tentou relatar em mais de 900 palavras.
É empolgante e exaustivo e, mesmo mantendo um nível de objetividade e imparcialidade profissional, você cria laços com membros do elenco e com outros jornalistas. Isso se torna inevitável quando se passa tanto tempo levando os jogadores a se abrirem e revelarem partes profundas de si mesmos e de seus pensamentos. Vemos os jogadores em seus melhores e piores momentos, após atuações individuais boas e ruins, com bandagens ou gelo nas pernas e manchas de grama e lama nas camisas, abraçando suas famílias diante de nós, às vezes de cabeça baixa e, em outras, com medalhas no pescoço.
Fiquei profundamente impressionado quando Jess Carter parou na zona mista para falar connosco com tanta franqueza, depois de uma atuação muito difícil contra a França na derrota da Inglaterra na estreia. Também me marcou a compostura e a maturidade de Michelle Agyemang antes do jogo contra os Países Baixos, quando a jovem de 19 anos se sentou para uma entrevista rodeada por jornalistas muito mais velhos. E fiquei admirado ao ver Lucy Bronze chegar mancando à zona mista para revelar que disputou o torneio com a perna fraturada.
A final vira um borrão. Você fica tão absorvido pelo trabalho — texto, entrevistas na zona mista, coletiva de imprensa, reescrita da matéria, planos de acompanhamento — que é difícil recordar os detalhes. O que mais me ficou na memória foi o depois: jarros e mais jarros de cerveja, o jogo reprisado em telões no pub, permitindo a um grupo heterogêneo de jornalistas revê-lo como torcedores, comemorando, cantando, bebendo e comendo pizza, enquanto o intrigado dono do pub observava.
Ainda é difícil entender o que vimos na Suíça. Foi uma campanha de torneio marcada por garra, coragem e caos, e a forma mais improvável de chegar ao título. Absolutamente inesquecível.
Este artigo é o terceiro de uma série de nossos correspondentes sobre os momentos mais memoráveis de 2025. A seguir: como as Red Roses conquistaram a Copa do Mundo Feminina de Rugby
Imagem de capa: [Fotografia: Harriet Lander/The FA/Getty Images]