Mikel Arteta precisa evitar um grande erro em meio à ‘escuridão à beira da cidade’
Após mais uma vitória por 3 a 0, o Arsenal é o futuro ou já um passado ultrapassado?
Após 15 anos ou mais da hegemonia da pressão alta no futebol, que se espalhou de cima a baixo e levou até equipas amadoras locais a sair jogando desde trás, uma mudança está em curso.
A ilusão é pensar que qualquer tendência vai durar para sempre, como se ESTA fosse a única forma de jogar. O mais inteligente é antecipar a tendência ou revolução seguinte. Depois de tanto tempo jogando da mesma maneira, para onde mais se pode ir? Ficou claro quando o Manchester City contratou Erling Haaland e conquistou a tríplice coroa que o jogo se tornaria mais, no jargão moderno, vertical. Ou mais direto, com bolas longas.
O City expôs bem a fragilidade desse estilo, especialmente quando depende de um único jogador para marcar a maioria dos gols. E mostrou como a falta de controle faz a defesa ser destruída em transições rápidas.
No Arsenal, já vemos o novo estilo atingir o seu auge. Ao rejeitar o que poderíamos chamar de firulas, a tendência é jogar de forma direta e apostar nas bolas paradas e nos laterais longos — todos aqueles recursos “feios” que antes eram praticamente proibidos em nome de uma ilusória pureza do futebol.
Embora ainda permita alguma firula, isso representa basicamente uma rejeição de tudo aquilo de que o Arsenal se orgulhava na era Arsène Wenger, quando se incomodava com a força bruta de Stoke e Bolton por não jogarem “da maneira certa”. Os torcedores juravam que não queriam ver um futebol assim, mas ficou claro que estavam sacrificando o sucesso em nome de uma abordagem excessivamente preciosista. Lembro até de torcedores dizendo que não gostariam de vencer jogando dessa forma, como se isso ofendesse o seu senso estético. Hoje, claro, isso ficou para trás.
Essa trajetória tem raízes antigas. Fala-se em jogar futebol “da maneira certa” desde o pós-guerra. Primeiro, isso foi associado ao estilo do West Ham e depois ao do Manchester City, quando Malcolm Allison era treinador e introduziu muitas ideias hoje atribuídas, de forma equivocada, aos técnicos modernos. Ele foi um dos pioneiros no uso do líbero no futebol inglês, uma tática então mais comum no continente. Utilizou o 3-5-2, testou uma linha de cinco flexível com alas e se afastou do rígido esquema “W-M”, que dominou o futebol britânico por décadas, incentivando suas equipes a atuar de forma mais fluida e posicional. Soa familiar?
Sua influência chegou até ao jovem José Mourinho, que costumava assistir aos treinos de Allison em Portugal, no seu bem-sucedido Sporting, e mais tarde o apontou como uma grande inspiração para a própria carreira — embora, ao que tudo indica, sem ir ao ponto de entrar num banho coletivo com uma estrela pornô.
Brian Clough também era um defensor fervoroso do ‘jeito certo’, com máximas sem fim sobre jogar futebol de passes em vez de simplesmente rifar a bola.
A questão é que as tendências táticas no futebol sempre passaram por ciclos e, como as equipas inglesas mostraram repetidamente nos anos 70, a incapacidade de mudar e ser flexível foi uma fraqueza grave.
Assim, imagino que a nova abordagem baseada em escanteios, bolas paradas e arremessos laterais longos logo chegue até os campos de Hackney Marsh, provavelmente no momento em que ela já se torne ultrapassada na elite e seja substituída por outra tática histórica reformulada.
Mas, numa altura em que dirigentes e adeptos exigem que um treinador tenha uma ‘filosofia’, isso pode impedir a flexibilidade necessária (veja-se Ruben Amorim) e expõe o erro de se agarrar por demasiado tempo a uma única abordagem. Não existe uma forma ‘certa’, por mais que alguns pensem que sim. Basta um conhecimento básico da história do futebol para perceber isso.
Se Mikel Arteta mantiver o estilo atual na próxima temporada na esperança de repetir o sucesso, o cenário pode se tornar preocupante. A tendência de posse de bola e pressão, muitas vezes pouco produtiva e por vezes monótona, já durou mais do que a maioria previa. Hoje, porém, os clubes jogam partidas demais para sustentar essa intensidade ao longo de toda a temporada — o que provavelmente explica por que Pep mudou primeiro. Esta abordagem mais direta dificilmente terá a mesma duração.
Arteta pode ter encontrado este estilo por acaso — duvido que tenha sido intencional. Ou talvez tenha uma rara capacidade de se antecipar às tendências. Mas, depois de o descobrir, insistir nele por tempo demais seria um grande erro. Mudança e flexibilidade mantêm todos em alerta.
Os jogadores tendem a ficar acomodados e esquecem como lidar, por exemplo, com a bola longa ou com um escanteio bem cobrado, porque passam muito tempo sem enfrentar esse tipo de jogada. Quando se adaptam de novo, o ideal é que você já tenha mudado a forma de jogar. Mas sempre existe a tendência de insistir no que deu certo. O Liverpool sabe bem o preço desse erro.
Se o Arsenal jogasse assim há 50 anos, seria batido repetidamente, porque todos saberiam defender esse tipo de jogo. A lição para Arteta é clara: não, a fórmula ainda não foi encontrada; esta é apenas uma fase que coincide com a transição dos outros candidatos para um novo estilo. É possível criar algo novo? O trabalho para isso deve começar agora.