O negócio por trás dos autógrafos de atletas
LeBron James, Michael Jordan ou Tiger Woods, por um lado. Por outro, Upper Deck, Fannatics Collectibles ou milhares de caçadores de recompensas que ficam de guarda durante horas para obter autógrafos de desportistas ou celebridades que depois revendem de mil e uma maneiras. É um negócio puro e simples que existe há muitos anos e que agora está a bater à porta de alguns destes protagonistas, como Lamine Yamal.
O fenômeno comercial vem dos Estados Unidos como uma exclusividade, mas isso já é feito há anos na Europa. O mecanismo é muito simples. O atleta em questão era "trancado" em um quarto de hotel em troca de uma boa quantia de dinheiro para assinar milhares de cartões, fotos ou camisas em troca de quantias significativas de dinheiro. Assinaturas que depois eram vendidas de muitas maneiras diferentes.
Na Europa, era muito comum ver os mesmos caçadores de autógrafos percorrendo hotéis em qualquer país com seus álbuns prontos para os jogadores assinarem cinco ou seis cartões ou fotos, que depois revendiam a um preço alto. Sergio Ramos foi um dos primeiros a se manifestar após se recusar a assinar uma camisa, pois admitiu que ela foi posteriormente leiloada. Thibaut Courtois já denunciou esse problema. "Há pessoas que sabem que eu paro bastante e elas pegam camisas ou luvas, tiram uma foto enquanto eu assino e as colocam à venda", disse ele durante uma entrevista.
Alguns clubes decidiram organizar este tipo de situação.
Alguns clubes decidiram organizar este tipo de situação, numa tentativa de impedir que a assinatura do jogador se tornasse um negócio paralelo. Foi inventada a fórmula do chamado 'Meet and Greet', um evento que, apoiado em muitas ocasiões por empresas comerciais, serve para organizar a assinatura de autógrafos e aproximar os adeptos dos protagonistas sem nada em troca.
Nos Estados Unidos, contratos entre atletas e empresas para 'privatizar' autógrafos são comuns. LeBron James trocou de empresa para obter um acordo melhor. Após 20 anos de contrato com a empresa Upper Deck, especialista nesse ramo, ele migrou para a Fanatics Collectibles. Estima-se um acordo de US$ 5 milhões anuais por assinaturas em cards exclusivos ou cartas colecionáveis.
O atacante do Barcelona, Lamine Yamal, assinou ou está pelo menos a negociar um contrato individual para vender a sua assinatura em camisolas, bonés, bolas, cartões e outros produtos. O jovem futebolista está prestes a fechar este acordo comercial com uma empresa especializada na produção de artigos autografados para desportistas. Lamine só para para posar para fotos e não para dar autógrafos.
Embora a medida possa parecer absurda, do ponto de vista comercial ela é bem recebida por especialistas e bastante comum em um mercado que está constantemente inovando em novas fontes de renda, como os jogadores da NBA, que há vários anos vendem seus autógrafos em diversos produtos.
"Pode parecer pedante ou desnecessário, mas atletas deste nível precisam não apenas aproveitar seu tempo e imagem de diferentes maneiras, mas também garantir que estejam associados a produtos licenciados de seus patrocinadores, clube ou da confederação do país que representam. Esse maior valor colocado em seus autógrafos, que limita quem os possui, também pode torná-los itens valiosos para instituições de caridade e instituições. Isso pode ser desconcertante para crianças que não podem pagar por um item autografado, mas as fotos, agora produzidas com enorme velocidade e facilidade, preenchem essa lacuna", diz Thiago Freitas, diretor de operações da Roc Nation Sports.
"No mercado dos EUA, os memorabilia dos jogadores fazem parte de uma indústria há décadas. Embora possa parecer estranho para o mercado europeu ou brasileiro, cobrar por autógrafos é apenas outra forma de monetizar um ídolo", diz Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM.
"A decisão de Yamal segue um modelo de negócios comum nos Estados Unidos: a profissionalização da marca pessoal do atleta. O lado positivo é a criação de um mercado para colecionáveis autênticos e verificados, o que permite que fãs de todo o mundo tenham acesso a um item verificado, além de ser uma fonte de renda nova e óbvia para o jogador", diz Thales Rangel Mafia, gerente de marketing da Multimarcas Consórcios.
Ele oferece um contraponto
No entanto, ele apresenta um contraponto. "Sem dúvida, é uma nova forma de gerar renda e profissionalizar algo que sempre teve um valor simbólico. Mas, ao transformar o gesto de um autógrafo, um momento de conexão entre o fã e seu ídolo, em um produto, corre-se o risco de esfriar essa relação. O que antes era uma experiência e uma emoção torna-se uma transação. E isso pode ser custoso em termos de imagem e atratividade para futuros patrocinadores", observa Wagner Leitzke, diretor de clubes da End to End.
"Compreendo a inovação e o uso de novos modelos de negócios. Vivemos na economia da atenção, e a idolatria de estrelas globais deve ser monetizada, claro. Além do fato de que muitos caçadores de autógrafos o fazem para revendê-los, a legitimidade da decisão do atleta de transformar a assinatura em um produto faz mais sentido. Simplesmente me preocupa que isso não crie oportunidades para Yamal (ou qualquer atleta) usar sua imagem e privilégio para servir crianças e fãs que muitas vezes não podem pagar pelo sonho de tal contato. No fim das contas, sem espaço para conexão humana e afeto recíproco, corremos o risco de esfriar demais nossa indústria", alerta Alexandre Vasconcellos, gerente regional da Flashscore.