O grande problema que o Arsenal precisa superar para conquistar o título
Gunners correm o risco de atrapalhar a si mesmos após disputa pelo título ficar totalmente em aberto
A mensagem ainda não parece ter chegado ao Arsenal, mas isto era para ser divertido.
O elenco mais forte do clube em décadas lidera tanto o campeonato nacional quanto a Europa, além de avançar com tranquilidade nas duas copas domésticas.
Mas a disputa pelo título da Premier League está se mostrando um tormento para torcedores e jogadores, com a sensação de que todos no clube querem apenas que o restante da temporada passe logo e esperam despertar apenas quando começar o desfile no ônibus aberto.
As marcas são evidentes após três temporadas consecutivas terminando em segundo lugar. O receio de fracassar numa quarta campanha é claro, e a ansiedade parece mais voltada a não perder do que propriamente a vencer.
O Arsenal teve desculpas em temporadas anteriores. A campanha de 2022-23 foi empolgante por tudo ser novidade, mas no fim a equipe de Mikel Arteta não tinha experiência para manter o ritmo até o fim.

A ansiedade tomou conta do Emirates Stadium no domingo
Getty Images
Um ano depois, o Arsenal venceu quase todos os jogos na segunda metade da temporada, mas a máquina do Manchester City continuou imparável. Na temporada passada, a crise de lesões foi grande demais para ser superada.
Desta vez, porém, não há como apontar o dedo para outro lado. O Arsenal tem tudo para encerrar uma espera de mais de duas décadas pelo título. O clima no clube é de que, se essa espera continuar, a culpa será apenas deles mesmos.
A derrota do Arsenal para o Manchester United no domingo deixou a equipe há três jogos sem vencer e marcou a quinta temporada seguida em que tropeça durante o inverno.
Há uma semana, uma vitória sobre o Forest ampliaria a vantagem sobre Manchester City e Aston Villa para nove pontos. Agora, ela é de apenas quatro.
Os Gunners foram seus piores inimigos aqui e deram a Bryan Mbeumo o gol de empate após um passe recuado desastroso de Martin Zubimendi.
Os anfitriões perderam totalmente a compostura naquele período e não a recuperaram. A decisão de Arteta de fazer quatro substituições antes da marca de uma hora também teve um tom emocional, quase desesperado.
Apesar de todas as mudanças no elenco, não houve alteração significativa na abordagem do Arsenal. As limitações vistas nos empates sem gols com Liverpool e Forest — e, na verdade, durante boa parte da temporada — continuaram evidentes.

Equipe de Mikel Arteta sofre revés na briga pelo título
REUTERS
O Arsenal tem dificuldades para criar chances com a bola rolando, não conta com uma opção convincente de centroavante e, mais recentemente, segue devolvendo a iniciativa ao adversário mesmo quando está por cima.
Apenas 22 dos 42 gols do Arsenal na liga nesta temporada saíram com a bola rolando, índice que o coloca em 17º lugar. Nenhum jogador do Arsenal marcou mais de cinco vezes na competição. O fato de tantos jogadores de ataque estarem rendendo abaixo individualmente aponta para um problema sistêmico bem mais amplo.
Todos esses fatores muitas vezes deixaram os Gunners dependentes de margens mínimas, e isso não ajudou a aliviar o clima de tensão que toma conta do Emirates Stadium.
A tensão vinha crescendo durante grande parte da temporada, mas contra o United atingiu o auge. Cada toque pesado e passe errado foi recebido com reclamações, e houve até algumas vaias ao apito final.
O Arsenal ainda tem sete jogos em casa pela liga nesta temporada, e a pressão só tende a aumentar. No momento, a equipe de Arteta não dá sinais de atropelar os adversários no campeonato, por isso atuar diante de 60 mil torcedores esperançosos, mas apreensivos, é mais um desafio a superar.
Eles também terão de lidar com os próprios medos e dúvidas, enquanto as lembranças dos fracassos das temporadas anteriores começam a voltar.
Patrick Vieira, último capitão do Arsenal campeão da liga, disse no domingo: "Eles ainda têm quatro pontos de vantagem, mas ainda há dúvidas sobre a força mental da equipe."
"Eles precisam jogar com mais energia e assumir mais riscos. Têm qualidade. Não jogaram com a liberdade para se expressar."
Em alguns aspectos, o Arsenal está se expressando perfeitamente neste momento.
Os gritos de desespero vindos das arquibancadas são alimentados tanto por 22 anos de frustração na liga quanto por uma reposição lateral atrasada de Ben White.
Medo nas bancadas e em campo: jogadores presos a uma abordagem rígida, que abre mão da liberdade e da inovação em nome do controle absoluto. Medo quando esse controle escapou diante do United e medo de vê-lo escapar também na corrida pelo título.
Se o Arsenal quiser finalmente superar os próprios medos e os rivais, terá de deixar de se sabotar.